Metal Feito com Paixão

Em São Paulo alguns festivais organizados por verdadeiros abnegados se tornaram famosos por revelar várias bandas para a cena do Hard Rock e o Heavy Metal, entre eles a “Praça do Rock”, que durante a década de 80 acontecia nas tardes de domingo no Parque da Aclimação.
Já aos 12 anos de idade eu fazia de tudo para estar sempre com o boletim azul para que tivesse a autorização de meus pais para assistir aos shows, além de ganhar um extra para comprar LPs usados ou novos na Baratos Afins.
Mas, uma data especial ficará marcada em minha memória: o dia em que vi o Centúrias na Praça do Rock.
Estava lá eu parado, sozinho, com aquela velha jaqueta jeans lotada de patches e buttons vendo o show do Abutre e à espera do Centúrias. Quando a banda subiu ao palco, foi algo indescritível, parecia que eu estava vendo o Judas Priest!
Depois disso, passei a estudar cada vez mais para poder conferir de perto a crescente cena nacional, que tinha grandes bandas como as veteranas Made In Brazil, Patrulha do Espaço e as da nova geração como Harppia, Vírus, Abutre, Salário Mínimo, Cérbero, A Chave do Sol, Ave de Veludo, Ethan, Lixo de Luxo, Gozometal, Santuário, Nostradamus, Anacrusa, Mammoth, Ano Luz, Antítese, Korzus e, é claro, o grande Centúrias.
Outro grande momento foi conferir de perto o festival “Metal 4”, com as bandas Centúrias, Salário Mínimo, Abutre e A Chave do Sol, realizado no Ginásio da Sociedade Esportiva Palmeiras, em São Paulo. Guardadas as devidas proporções, aquele tipo de evento era como se fosse o “Monster Of Rock”.
O Centúrias conseguiu a façanha de estar presente em um dos primeiros registros fonográficos da cena nacional, a coletânea “SP Metal”, lançado pela Baratos Afins. Depois disto, com o status de banda grande para os padrões da época, fazia por merecer um LP. Luiz Calanca da Baratos Afins, que havia sido o idealizador da famosa coletânea, não perdeu tempo e deu a chance para Paulo Thomaz (baterista), Eduardo Camargo (vocalista), Adriano Giudice (guitarra) e Rubens Guarnieri (baixo), line-up em 1985.
O quarteto entrou em estúdio no mês de outubro de 1985 e mesmo com todas as dificuldades encontradas com o precário equipamento que dispunham, conseguiram gravar um dos melhores álbuns de Hard Rock cantado em língua portuguesa, o LP “Última Noite” e, ainda, “Não Pense Não Fale”, melhor composição da carreira da banda ao lado de “Portas Negras”.
Tempos depois, por diferenças musicais, o Centúrias mudou seus integrantes, restando somente o baterista demolidor Paulão do line-up original. Entraram o ex-Santuário César “Cachorrão” Zanelli (vocal), e os ex-Harppia Ricardo Ravache (baixo) e Marcos Patriota (guitarra). Com esta formação a banda realizou outro trabalho antológico, o LP “Ninja”, que continha as faixas “Senhores da Razão” e “Fortes Olhos”, que faziam sucesso nos shows. E quem não se lembra daquele show chamado “No Posers”, ocorrido no Espaço Mambembe, em 1987.
Felizmente, nessa época fiquei amigo de Paulo Thomaz, hoje um irmão.
Paulão sempre acreditou no potencial da banda, mas os tempos eram outros, o Trash Metal dominava, quase todas as bandas cantavam em inglês e uma em especial surgia naquele momento, o Sepultura.
O Centúrias infelizmente encerrou suas atividades mas com o relançamento em CD dos LPs “Última Noite” e “Ninja” você poderá sentir em cada nota, base, solo, pegada de batera e em frase cantada por Edu ou Cachorrão, como era feito o Hard Rock e Heavy Metal. Uma coisa simples, pura e quase ingênua para os padrões atuais. Mas alguém discorda que a garra, paixão, sentimento e força de vontade sempre falam mais alto?

Ricardo Batalha
Redator Chefe da Revista Roadie Crew

Texto extraído do CD Última Noite / Ninja - Baratos Afins - 2001

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